Easy as pie
Tem gente que quando fica triste, come. Eu faço bolos.
Bolos grandes ou pequenos, simples ou incrementados. Mas quanto mais trabalhoso, melhor: de preferência com direito a recheios e coberturas elaboradas. Só que eu não gosto de comer bolo. Nunca gostei.
Nunca gostei de comer bolo, mas adoro fazer. Adoro a mistura precisa dos ingredientes, as proporções, a ordem certa e o tempo exato pra bater cada coisa. Tudo faz sentido e tem um propósito numa receita de bolo. Um bolo nunca dá errado se você faz tudo certo, se você é atenta aos detalhes e sente o que cada ingrediente te diz. É preciso entender a magia e a matemática por trás das receitas e de suas proporções. Quanto mede uma pitada de canela? É aquele toque exato que a ponta dos meus dedos conhece tão bem. Cozinhar de verdade é uma das grandes artes, aquela que se perdeu no niilismo do caldo Knorr e outros temperos prontos.
Só que eu não como bolo. Depois de prontos, eles ficam lindos e tristes em cima da minha mesa. Devo dar pra vizinha? Levar de presente na casa de alguém?
Marcos da minha solidão, os bolos que ninguém come.
E ainda assim, mal aprontei um, já sinto o comichão interior que me diz pra fazer outro. Minha tristeza é tão destrutiva que ainda serve pra engordar os outros.
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Minha avó era confeiteira. Fazia bolos enormes, super decorados, de vários andares, para casamentos e festas de 15 anos. Ela sempre inovava, bolos lindos e criativos. Lembro que para meu aniversário de 5 anos, ela fez um bolo que reproduzia o castelo da Branca de neve, com direito a ponte levadiça e fosso com jacarés em volta (idéia minha) e os 7 anões de glacê no gramado em frente.
Sempre passei as férias, quando criança, com ela, então algumas das memórias mais nítidas da minha infância são ligadas a ajudar a bater massa, a arrumar e decorar bolos. Seu amor sempre me incluiu na cozinha, seu reino particular e fechado a seus demais netos e filhos.
(Minha avó nunca ensinou suas filhas, nem mesmo minha mãe, a cozinhar algo banal como fritar um ovo, muito menos a fazer um de seus bolos maravilhosos. Mamãe é capaz de queimar miojo.)
Cozinhar era o momento em que éramos mais próximas. Compartilhávamos de um amor alquímico por cozinhar que mais ninguém entendia: não a mesquinharia de transformar chumbo em ouro, mas a de transformar coisas banais como farinha em doçura e amor.Ela quebrava os ovos, separando suas partes: gemas para um lado, para que ela as batesse com manteiga e açúcar, claras para outro, para que eu as batesse em neve.
Ainda lembro como se fosse hoje da sensação de colocar andar sobre andar de um bolo que era de um branco mármore perfeito, decorado com florzinhas de açúcar e cascatas de glacê por uma mão que não podia jamais tremer ou hesitar e que precisava se mover com a delicadeza e a lentidão de quem desenha no ar a música de uma orquestra invisível.Para minha alma infantil, aquilo era a perfeição.
Comer um bolo como aquele, parti-lo em pedaços, maculá-lo, ousar destruir ou conspurcar suas formas perfeitas era o próprio princípio do caos, o começo da dor e da falta de sentido do mundo: soldados que pisoteiam flores que nem mesmo enxergam a marchar em um campo de batalha.
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Minha infância é a memória luminosa e bela de um bolo branco de flores prateadas, brilhando na luz difusa da cozinha.
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Suas memórias me encheram de luz.
Atualiza o blog, querida!