Não posso

•22 maio, 2010 • 2 Comentários
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Se eu pudesse, colheria minha tristeza como uma flor.
E não como memórias. Nao como certezas de ausências
e de impossibilidades.
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Se eu pudesse, colheria minha solidão como um pérola.
A tiraria de sua concha, na profundeza escura do oceano,
onde reside sozinha.
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Mas não posso.
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Easy as pie

•25 abril, 2010 • 1 Comentário

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Tem gente que quando fica triste, come. Eu faço bolos.

Bolos grandes ou pequenos, simples ou incrementados. Mas quanto mais trabalhoso, melhor: de preferência com direito a recheios e coberturas elaboradas. Só que eu não gosto de comer bolo. Nunca gostei.

Nunca gostei de comer bolo, mas adoro fazer. Adoro a mistura precisa dos ingredientes, as proporções, a ordem certa e o tempo exato pra bater cada coisa. Tudo faz sentido e tem um propósito numa receita de bolo. Um bolo nunca dá errado se você faz tudo certo, se você é atenta aos detalhes e sente o que cada ingrediente te diz. É preciso entender a magia e a matemática por trás das receitas e de suas proporções. Quanto mede uma pitada de canela? É aquele toque exato que a ponta dos meus dedos conhece tão bem. Cozinhar de verdade é uma das grandes artes, aquela que se perdeu no niilismo do caldo Knorr e outros temperos prontos.

Só que eu não como bolo. Depois de prontos, eles ficam lindos e tristes em cima da minha mesa. Devo dar pra vizinha? Levar de presente na casa de alguém?

Marcos da minha solidão, os bolos que ninguém come.

E ainda assim, mal aprontei um, já sinto o comichão interior que me diz pra fazer outro. Minha tristeza é tão destrutiva que ainda serve pra engordar os outros.

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Minha avó era confeiteira. Fazia bolos enormes, super decorados, de vários andares, para casamentos e festas de 15 anos. Ela sempre inovava, bolos lindos e criativos. Lembro que para meu aniversário de 5 anos, ela fez um bolo que reproduzia o castelo da Branca de neve, com direito a ponte levadiça e fosso com jacarés em volta (idéia minha) e os 7 anões de glacê no gramado em frente.

Sempre passei as férias, quando criança, com ela, então algumas das memórias mais nítidas da minha infância são ligadas a ajudar a bater massa, a arrumar e decorar bolos. Seu amor sempre me incluiu na cozinha, seu reino particular e fechado a seus demais netos e filhos.

(Minha avó nunca ensinou suas filhas, nem mesmo minha mãe, a cozinhar algo banal como fritar um ovo, muito menos a fazer um de seus bolos maravilhosos. Mamãe é capaz de queimar miojo.)

Cozinhar era o momento em que éramos mais próximas. Compartilhávamos de um amor alquímico por cozinhar que mais ninguém entendia: não a mesquinharia de transformar chumbo em ouro, mas a de transformar coisas banais como farinha em doçura e amor.Ela quebrava os ovos, separando suas partes: gemas para um lado, para que ela as batesse com manteiga e açúcar, claras para outro, para que eu as batesse em neve.

Ainda lembro como se fosse hoje da sensação de colocar andar sobre andar de um bolo que era de um branco mármore perfeito, decorado com florzinhas de açúcar e cascatas de glacê por uma mão que não podia jamais tremer ou hesitar e que precisava se mover com a delicadeza e a lentidão de quem desenha no ar a música de uma orquestra invisível.Para minha alma infantil, aquilo era a perfeição.

Comer um bolo como aquele, parti-lo em pedaços, maculá-lo, ousar destruir ou conspurcar suas formas perfeitas era o próprio princípio do caos, o começo da dor e da falta de sentido do mundo: soldados que pisoteiam flores que nem mesmo enxergam a marchar em um campo de batalha.

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Minha infância é a memória luminosa e bela de um bolo branco de flores prateadas, brilhando na luz difusa da cozinha.

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The Mermaid’s Moon

•9 setembro, 2009 • 2 Comentários

Prepare-se.
Feche os olhos.
E ouça…
( O Mar rufa em trovões assustadores, na batida de deu proprio coração.
Em cada onda, um vislumbre… O ar cheira a Sangue, Sêmen, Sal, Suor e Sonhos… )
Sob a lua…
Ela canta.
E sua canção, perdida sobre a pauta do vento, está a lhe contar segredos há muitos esquecidos…

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Esta é uma página de Sonhos…
De estórias a serem contadas, perdidas em infindáveis grãos de areia.
Fragmentos de magias & perigos,
de mentiras & luz das estrelas …
((Texto de Abertura escrito em janeiro de 1998, para um projeto de site que nunca foi concluído…))

As encruzilhadas do labirinto…

•2 setembro, 2009 • Deixe um comentário

Os ditirambos da razão. As encruzilhadas do labirinto.

Juízos analíticos, claros  sintéticos. Kant, onde está a coisa em si? Jamais conhecerei o nóumeno?

Urteil. Dividir e conquistar. Dividir e conhecer. Das partes alcançar o todo. Ou do todo alcançar as partes? Eu sou a pessoa mais racional que conheço. E ainda assim não sou racional.

Os ditirambos da razão… A clareza que cega.  Onde está o todo, quando só enxergamos as partes. Brilhantemente, as partes.  Descartes, como pode a infabilidade da razão se fiar na fé? Juízos claros e  distintos, em última instancia se fundamentando na certeza de que um gênio maligno não atrapalha o processo, não se pondo entre o sujeito cognescente e o objeto cognoscível?

Hegel, Hegel… Pelo menos vc diferencia razão e entendimento.  Mas uma razão dialética, uma razão que trabalha a partir de contradições que não mais se contradizem, porém se englobam em um todo que o entendimento deixa escapar, não é outro ditirambo da razão? Hegel Hegel. O pensador do estado é o mais revolucionário.  Mas ninguém vê. Talvez um dia eu compreenda você.

O orgulho da razão.  O esquecimento de seus fundamentos…  Qual é o fundamento do fundamento?   Toda certeza, em  última instância é incerta. Qual o fundamento do fundamento. Abgrund. O fundamento se funda no vazio.   As pessoas deveriam ler Hume antes de falar “cientificamente comprovado”.  Como pode o conhecimento que se diz absoluto (Newton, vc não conseguiu ainda! Não são equações matemáticas que as pessoas enxergam ao ver o por do sol! Talvez em mais um século vc consiga!)  se fundar no hábito? Serão todos os cisnes brancos só por que ainda não se viu o preto? Cientificamente, sim. Fatos, fatos. O que é um fato, se não algo inserido em um contexto, a partir do qual este ganha seu significado?  Hermenêutica.

Matematização do real. A razão é masculina, patriarcal, guerreira, conquistadora. Todo raciocínio é um estupro.  Quantas vezes terei de ouvir que, para uma mulher,  eu não me deixo levar pela sensibilidade ? Eu sou uma pedra.  Por que a razão recebe um a na frente?  Ela não é feminina.

Sou dura e afiada, comigo não existem mais meias palavras, coisas não ditas, duplos sentidos.  É isso o que o discurso pseudo filosófico corrente na academia faz comas pessoas. Cuidado crianças!

O homem é um animal racional, já dizia  Aristóteles. Quantas vezes este pobre coitado será mau compreendido e mau traduzido?  O animal provido de logos a que ele se referia não é esse conceito tacanho corrente  no senso comum (ao qual nem mesmo mais os cientistas dao crédito em tempos de física quântica, wormholes e um elétron que pode SIM estar em lugares diferentes no espaço ao mesmo tempo).  Logos. A mesma palavras que está no evangelho de São João. “E no princípio era o verbo…”  Logos. Pensamento, palavra, verbo, reunião , fala.  A melhor tradução é que o homem é o animal capaz de falar…

(Gestell.  Esta é a palavra  para a essência de nosso tempo. A razão anda de braços dados com o niilismo. Tudo disponível.  Tudo é quantificável. E ao mesmo tempo,  tudo é fonte de lucro. Nada tem valor. )

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Não sou…

•9 julho, 2009 • 4 Comentários

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Não sou os lugares onde estive, nem os livros que li.
Não sou as coisas que vivi, nem nada do que estudei.
Não sou o que aprendi.
Não sou as pessoas que conheci, nem nenhuma das experiências que tive.
Não sou ninguém.
Não sou nada disso nem daquilo.
Não sou.
Simplesmente, não sou.
Mas fui, por uma fração de segundo, cada uma das coisas que amei.

Eternidade que não dura.

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Eu quero ir embora

•29 junho, 2009 • 8 Comentários

Hinfart Miroque Festival 02 sept 07 (4)

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E a vontade de fugir tem crescido cada vez, dia a dia, minuto a minuto. E em todo meu coração, é só nisso que eu penso.

I Just want to keep walking. Just… keep walking.

Até quando, meu deus, até quando? Até quando essa vontade de sair correndo, de fugir e de não olhar para trás, de não fincar raízes…? Justamente porque o que eu mais queria era fincar raízes. O lar sonhado. O jardim que um dia eu construirei. Minhas rosas, meus animais. Meu ninho. Mas eu não consigo. Não ainda. Ou talvez não me seja jamais possível. Exílio, sempre a sensação de exílio…  Esta maldita sensação de não pertencimento.

De pertencer ao mundo, mas não a um local em específico. Não tenho casa…  Tenho sim, muitos amores — muitos locais queridos e pessoais, e também pessoas, muito e para sempre amadas. Tenho momentos que coleciono como pérolas no sacrário do meu coração. Já tive casas, muitas casas.  Mas não aquele lar definitivo, para onde meu coração sempre quer voltar. Uma lareira, e um vinho quente com especiarias a minha espera ao fim da mais longa jornada. Ou tenho, mas ele não existe neste mundo. Meu coração quer voltar para um lugar que não sabe como encontrar,talvez.  Acho que esta trilha eu perdi. Mas eu sempre olharei às estrelas a noite, e contemplarei Órion, e não saberei ao certo para onde ele aponta. Só saberei da saudade que me corta.

Gaia, a própria terra, minha amada terra… De algum modo, você toda é meu lar. E meu exílio. Não moro em nenhum recanto seu — talvez porque queira te ter inteira?  Minha amada, minha maior escolha, e minha maior dor. Escondo minha cabeça em suas nuvens,  balanço meus pés em um lago desconhecido na floresta negra, quero que meus cabelos sejam lavados nas águas negras do Rio Negro, aonde durmo embalada pelas ondas macias… Ainda quero subir todas as tuas  montanhas e ver as veias da tua face, colecionando pedras e conchas de todos os seus desterros e confins. Quero que meu coração ache paz em um Ashram na Índia, onde me esconderei um dia, e apagarei minha memória. Eu quero conhecer tuas trilhas, teus cheiros, tuas cores. Cada uma delas. Quero te percorrer inteira. Just walking.

Preciso partir. Inglaterra desta vez. Depois leste europeu. Até chegar na Índia. E ai, quem sabe… Austrália? Indonésia? Bali? Não sei. Talvez sim. Talvez não.

Não sei… Não sei de nada. Nunca soube. Meu coração não tem paz.

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E o pior é saber da inutilidade disto tudo, volta hermenêutica sobre mim mesma. Pois eu sei que há um momento em que todas as estações de trem são iguais. E iguais são todos os aeroportos. Todos os caminhos, e todas as montanhas. Não faz diferença. Andar e partir, ficar e dormir…. é o mesmo. Não se pode partir e deixar a própria sombra para trás.

Eu estou cansada de caminhar. E ainda assim, eu quero ir embora. Porque eu não sei permanecer.  E também não tenho porque ficar.

Just… keep walking.

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“Teus olhos, sempre puros” – Paul Eluard

•29 junho, 2009 • 2 Comentários

“Dias de lentidão, dias de chuva,
Dias de espelhos quebrados e de agulhas perdidas,
Dias de pálpebras cerradas ao horizonte dos mares
De horas sempre iguais, dias de cativeiro.

Meu espírito que brilhava ainda sobre as folhas
E as flores, meu espírito está nu como o amor,
A aurora que ele esquece fá-lo baixar a cabeça
E contemplar seu corpo obediente e vão.

No entanto, eu vi os mais belos olhos do mundo,
Deuses de prata que traziam em suas mãos safiras,
Deuses verdadeiros, pássaros na terra
E na água, eu os vi.

Suas asas são as minhas, nada existe
Salvo o seu vôo que sacode a minha miséria,
O seu vôo de estrelas e de luz,
Rio, planície, rocha, o seu voo,
As ondas claras das suas asas,

O meu pensamento sustentado pela vida e pela morte.”